sábado, 14 de Novembro de 2009

Gayvotas III

«Se eu fosse gay, levaria a mal que houvesse uma espécie de casamento – que não era casamento – que tivesse um nome e um carácter diferentes. Mentira: não é preciso ser-se gay. Basta ser-se justo. Pensar não é preciso.

A sexualidade sempre foi despromovida, como as cores e os escritores favoritos. Dizer que os homossexuais não se podem casar é como dizer que os negros, os judeus ou as pessoas que não gostam de ver televisão não se podem casar. É absurdo.

É absurdo falar em homossexuais. Vamos arrepender-nos de não termos sido capazes de deixar a discriminação estúpida, baseada na observação de haver pessoas que são diferentes da maioria.

Casemo-nos mais ou menos. Mas não prestemos atenção a quem se case. Mal ou bem. Depende de quem se casa com quem. A sexualidade nem sequer um pormenor é.»

Miguel Esteves Cardoso, «Que Case Quem Queira», Público, 14-11-2009.

sexta-feira, 13 de Novembro de 2009

Gayvotas II

Um homem e uma mulher adultos decidem casar. Não precisam de provar que estão apaixonados, que têm a capacidade de procriar, que querem viver na mesma casa, que querem uma plena comunhão de vida. Existem muitos casamentos sem amor entre os cônjuges, sem filhos biológicos, sem intenção de constituição de família para além do próprio casal e dos familiares de ambos, sem comunhão plena de vida. Ou seja, já existem, na sociedade em que vivemos, muitas formas diferentes de concretização da instituição matrimonial. A eliminação da discriminação sexual no artigo nº 1577 do Código Civil é apenas a assunção plena dessa variedade sociológica de concepções do casamento.

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

Gayvotas

Ainda não se sabe quando se iniciará, mas é certo que, em breve, a Assembleia da República vai debater e votar uma proposta legislativa que eliminará a diferença de género sexual entre parceiros enquanto quesito do casamento civil. O Código Civil actual diz o seguinte:

ARTIGO 1577º

(Noção de casamento)

Casamento é o contrato celebrado entre duas pessoas de sexo diferente que pretendem constituir família mediante uma plena comunhão de vida, nos termos das disposições deste Código.

Daqui se deduz que, a ser aprovada a alteração do Código Civil que consiste na eliminação da expressão a negrito, todos os casais que desejem ver reconhecido pelo Estado o seu matrimónio o poderão fazer em igualdade de circunstâncias, independentemente de se tratar de um homem e uma mulher, de dois homens ou de duas mulheres.

Também já se percebeu que começa a crescer um movimento que, sendo contra esta alteração, pretende levar a questão a referendo – jogando no previsível conservadorismo da maioria no momento de votar. E recomeçou, sobretudo nos jornais e nos blogues, o debate que opõe quem é a favor e contra essa medida.

Na prática, está-se apenas a discutir a possibilidade legal do «casamento homossexual», já que o chamado «casamento heterossexual» é reconhecido por lei. Na prática, está-se novamente a discutir o fantasma da homossexualidade e da ameaça que ela constitui para uma cultura dominantemente heterossexual, apesar de a sexualidade humana ser tudo menos reduzível a esses dois padrões de comportamento sexual.

Num pungente e lúcido livro publicado há uns anos atrás (Gayvota), Guilhermo de Melo dava testemunho do mal que a sociedade faz aos seus filhos, com base na sua própria experiência de vida e na correspondência que foi recebendo ao longo de muitos anos, enquanto jornalista do Diário de Notícias. Muitos desses relatos e crónicas quase queimam de tão pungentes: são mães que choram o suicídio de filhos incapazes de assumir a sua homossexualidade, jovens ostracizados pela família ou pelos amigos, na escola, quando a sua homossexualidade é revelada ou descoberta, a dor de homens e mulheres casados apenas para mascararem a sua homossexualidade, etc.

Se é verdade que, à superfície, a sociedade portuguesa parece mais tolerante para com as pessoas que amam parceiros do mesmo sexo, tenho sérias dúvidas de que essa «tolerância» seja consistente, quando feita uma análise em profundidade. Talvez os especialistas na matéria (cf. Miguel Vale de Almeida ou o autor do blogue Renas e Veados) tenham dados mais seguros sobre isto. (Há um pequeno teste que pode ser feito a qualquer um: consiste em perguntar, a qualquer cidadão que se afirme tolerante, como reagiria ao facto de se tornar no destinatário da paixão de uma pessoa do mesmo sexo, ou seja, se esse acontecimento seria vivido da mesma forma no caso de a pessoa apaixonada ser do sexo oposto.)

Tive uma educação privilegiada: praticamente desde a infância, os meus pais nos ensinaram que todas as formas de amor são humanas e normais e todas possibilitam o encontro com a Felicidade. E não ensinavam só: exerciam na prática esse ensinamento, na forma como se relacionavam com amigos e familiares e guiavam o nosso comportamento nos meandros dessa rede de relações. Sei, contudo, que essa não foi/não é a realidade da enorme maioria das pessoas. E porque tento manter-me atento à sociedade em que vivo, conheço muitos sintomas (graves) dessa doença social, sobre os quais tentarei escrever noutro momento.

O reconhecimento do direito ao casamento a todas as pessoas adultas, independentemente do sexo, não obriga ninguém a exercê-lo nem põe em causa os casamentos já realizados. E daria um sinal muito forte à sociedade, contribuindo, assim, para que muito do sofrimento que ainda persiste em tanta gente pudesse, a pouco e pouco, apaziguar-se.

sábado, 7 de Novembro de 2009

Antes da Leitura

A quem interesse (ainda não li, mas já debiquei): Juan Masiá, A Sabedoria do Oriente, Editorial Notícias/Casa das Letras.

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Leituras

É um «escritor de massas», sobretudo um bom contador de histórias policiais. O último livro é mais um exemplo desse dom de nos prender, capítulo a capítulo, num enredo que se vai complicando cada vez mais para, no final, nos apresentar uma solução muito simples para os mistérios que se foram adensando. Cavalga bem a onda da Nova Era que, sendo ou não apenas uma moda, tem vindo a interessar um número cada vez maior de pessoas no mundo inteiro.
Não se trata de um «grande romance», não. No entanto, a dada altura, lê-se uma frase daquelas que vale a pena fixar:
A única diferença entre nós e Deus é o facto de nós termos esquecido que somos divinos.
Não é um saber novo, mas é sempre novo lembrarmo-nos disso.
Dan Brown, O Símbolo Esquecido.

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

Miragem Numa Bolha de Lama Talvez

e lá vamos para Tar (miragem numa bolha de lama talvez) pela estrada das nossas aflições empurradas para o fundo do silêncio e lá vamos para Tar carregados de nós e da nossa doce esperança e de nada sabermos do futuro porque em cada momento um acontecimento nos diz trai e nos distrai e lá vamos para Tar muito redondamente angulosos e lá vamos para quem sabe pela última vez Tar insensatos ou nervosamente adormecidos

domingo, 27 de Setembro de 2009

De quando damos conta de que falhou tudo o que fizemos para conseguirmos um amor

Palavras muito simples e muito sábias de Clarice Lispector, publicadas aqui mesmo ao Lado, despertaram em mim a vaga tristeza própria de quem sempre se atrasa ou se adianta e não sabe porquê. «Quando chegares, saberei quem és» poderia ser o primeiro verso de um poema sobre a misteriosa avaria de um relógio apaixonado que nunca acerta a hora pelo bater do coração amado. Uma espécie de "maquenismo" que teima em não abrandar, apesar de a regularidade do Tempo ser sempre a mesma desde os primórdios - e nunca, mas nunca, permitir ajustamentos.
Nada fazer é, sem dúvida, a vacina capaz de aniquilar esse vírus tão mortal do desacerto. Mas nada fazer é também impossível para a própria natureza da paixão. Porque não há paixão sem doença, sem atropelo da ordem interior, sem terramoto nos ossos, sem erupção do sangue espesso que se forma nas veias e nas artérias à beira da explosão. A paixão escolhe apenas a parte de nós que nada sabe, que nada pensa, que não se distancia: a paixão reduz-nos à paixão. E quando damos conta de que falhou tudo o que fizemos para conseguirmos um amor, já a aceleração nos levou para além da nossa capacidade de inércia.
O trabalho seguinte, sempre atrasado porque a paixão se adiantou, consiste já não em nada fazer, porque o que fizemos está feito, mas em voltar a aprender a acertar o passo com o ritmo que vida quer de nós.
Por isso dói.

quinta-feira, 24 de Setembro de 2009

Do Bom Trigo


Luzia, 66 anos, padeira de profissão em Valpedre (Penafiel). Dirigia-se para o trabalho, como sempre, às 02h30, quando encontrou uma mala cheia de dinheiro (9.300 euros, a saber, cerca de 1.800 contos). Entregou-a à GNR e ainda ajudou a encontrar o dono, Moisés. («Só uma pessoa de consciência tranquila consigo mesma é que não se sente tentada por tanto dinheiro.») Dois anos antes, ela própria tinha perdido 780 euros, mas foram-lhe devolvidos no dia seguinte por quem os encontrou. História bíblica. Sobre o bom trigo de que se faz o bom pão.

domingo, 20 de Setembro de 2009

Uma Sequência de Cantigas Bonitas, «como a cantiga da pena»



You are so beautiful to me
You are so beautiful to me
Can't you see
Your everything I hoped for
Your everything I need
You are so beautiful to me

Such joy and happiness you bring
Such joy and happiness you bring
Like a dream
A guiding light that shines in the night
Heavens gift to me
You are so beautiful to me




Unchain my heart
Baby let me be
'Cause you don't care
Let me
Set me free

Unchain my heart
Baby let me go
Unchain my heart
'Cause you don't love me no more
Every time I call you on the phone
Some fella tells me that you're not at home
Unchain my heart
Set me free

Unchain my heart
Baby let me be
Unchain my heart
'Cause you don't care about me
You've got me sowed up like a mellow case
But you let my love go to waste
Unchain my heart
Set me free

I'm under your spell
Like a man in a trance baby
Oh but you're no doubt aware
That I don't stand a chance
Unchain my heart
Let me me go my way
Unchain my heart
You are in me night and day
Why leave me two a life of misery
When you don't care about the beans for me
Unchain my heart oh please
Set me free
Alright
I'm under your spell
Just like a man in a trance oh baby
But you're no doubt aware
That I don't stand a chance
Please unchain my heart
Let me go my way
Unchain my heart
You are in my night and day
Why leave me to a life of misery
When you don't care about the beans for me
Unchain my heart
Please set me free
Oh set me free
Oh woman why don't you do that for me
You don't care
Won't you let me go
That you don't love me no more
Like a man in a trance
let me go
I'm under your spell
Like a man in a trance
And you're no doubt aware
That I don't stand a chance no
Oh
You don't care
Please set me free

quarta-feira, 12 de Agosto de 2009

Debate com Diderot (XXIV): outras vocações

Não sou actor nem encenador nem dramaturgista nem figurinista nem tradutor nenhuma função tradicional e bem definida do Teatro. Sou servidor. A pouco e pouco vou reconhecendo em mim essa vocação. Quando represento ou enceno ou dirijo actores ou traduzo ou analiso dramaturgicamente uma peça ou invento um figurino estou a exercer, com tudo o que tenho, aquela função. A minha criação e o meu prazer são esses.

sexta-feira, 7 de Agosto de 2009

O Génio, os Olhos e a Voz




O Que Será (À Flor da Pele)
Letra: Milton Nascimento
Música: Chico Buarque

O que será que me dá
Que me bole por dentro, será que me dá
Que brota à flor da pele, será que me dá
E que me sobe às faces e me faz corar
E que me salta aos olhos a me atraiçoar
E que me aperta o peito e me faz confessar
O que não tem mais jeito de dissimular
E que nem é direito ninguém recusar
E que me faz mendigo, me faz suplicar
O que não tem medida, nem nunca terá
O que não tem remédio, nem nunca terá
O que não tem receita

O que será que será
Que dá dentro da gente e que não devia
Que desacata a gente, que é revelia
Que é feito uma aguardente que não sacia
Que é feito estar doente de uma folia
Que nem dez mandamentos vão conciliar
Nem todos os ungüentos vão aliviar
Nem todos os quebrantos, toda alquimia
Que nem todos os santos, será que será
O que não tem descanso, nem nunca terá
O que não tem cansaço, nem nunca terá
O que não tem limite

O que será que me dá
Que me queima por dentro, será que me dá
Que me perturba o sono, será que me dá
Que todos os tremores me vêm agitar
Que todos os ardores me vêm atiçar
Que todos os suores me vêm encharcar
Que todos os meus nervos estão a rogar
Que todos os meus órgãos estão a clamar
E uma aflição medonha me faz implorar
O que não tem vergonha, nem nunca terá
O que não tem governo, nem nunca terá
O que não tem juízo

terça-feira, 4 de Agosto de 2009

Menina e Moça




Chega de Saudade
António Carlos Jobim e Vinícius de Moraes
(Cantam Bebel e João Gilberto)


«Vivi ali tanto tempo quanto foi necessário para não poder viver em outra parte. Muito contente fui em aquela terra, mas, coitada de mim, que em breve espaço se mudou tudo aquilo que em longo tempo se buscou e para longo tempo se buscava. Grande desaventura foi a que me fez ser triste ou, per aventura, a que me fez ser leda. Depois que eu vi tantas cousas trocadas por outras, e o prazer feito mágoa maior, a tanta tristeza cheguei que mais me pesava do bem que tive, que do mal que tinha.»

Bernardim Ribeiro, Menina e Moça (ou Saudades), Évora, 1554.

domingo, 2 de Agosto de 2009

Cantilena

Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly. Hold on tightly, let go lightly.
Como um refrão de uma cantilena que se trauteia involuntariamente o dia inteiro. E depois percebo que na língua que falo não consigo dizer a mesma coisa, de uma forma tão simples. Na minha língua, só sou capaz de dizer, com poucas palavras: «abraça com força».

terça-feira, 21 de Julho de 2009

Fotografia (Incompleta)



Eu, você, nós dois
Aqui neste terraço à beira-mar
O sol já vai caindo
E o seu olhar
Parece acompanhar a cor do mar
Você tem que ir embora
A tarde cai
Em cores se desfaz
Escureceu
O sol caiu no mar
E a primeira luz lá embaixo se acendeu
Você e eu

[Eu, você, nós dois
Sozinhos neste bar à meia-luz
E uma grande lua saiu do mar
Parece que este bar
Já vai fechar
E há sempre uma canção para contar
Aquela velha história de um desejo
Que todas as canções têm pra contar
E veio aquele beijo
Aquele beijo
Aquele beijo]

António Carlos Jobim (canta Gal Costa)

domingo, 12 de Julho de 2009

Sonhos

O que fazer com os sonhos que nos desarrumam? Se os sonhos são mensagens do inconsciente, como distingo se o sonho me diz o que eu quero ou o que eu sei? É absurdo, é absurdo continuar-se a dizer que os sonhos não são reais - porque, enquanto nos acontecem, não é real dizer que não são reais. Os sonhos são vida, vida vivida, vida vivida. Mas, se na vida acordada não vivemos o que vivemos nos sonhos, então a vida acordada não é real.