Domingo, 5 de Julho de 2009

Perfume Exótico

Quando eu a dormitar, num íntimo abandono,
Respiro o doce olor do teu colo abrasante,
Vejo desenrolar paisagem deslumbrante
Na auréola de luz d'um triste sol de outono;

Um éden terreal, uma indolente ilha
Com plantas tropicais e frutos saborosos;
Onde há homens gentis, fortes e vigorosos,
E mulher's cujo olhar honesto maravilha.

Conduz-me o teu perfume às paragens mais belas;
Vejo um porto ideal cheio de caravelas
Vindas de percorrer países estrangeiros;

E o perfume subtil do verde tamarindo,
Que circula no ar e que eu vou exaurindo,
Vem juntar-se em minh'alma à voz dos marinheiros.

Charles Baudelaire, in As Flores do Mal (tradução de Delfim Guimarães).

Terça-feira, 26 de Maio de 2009

Memorando

Le véritable courage de l’homme fort, c’est de résister au mal et de combattre l’injustice en prenant le risque de mourir pour ne pas tuer, plutôt que celui de tuer pour ne pas mourir. Le plus grand courage, c’est de résister au mal en refusant d’imiter le méchant.
[A verdadeira coragem do homem forte consiste em resistir ao mal e combater a injustiça correndo o risco de morrer para não matar, em vez de matar para não morrer. A coragem maior consiste em resistir ao mal recusando imitar o mau.]
Mahatma Gandhi

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Casa (II)

Pouco a pouco, a casa foi despertando numa cadência de luz branca e perfumada. E, pouco a pouco, as coisas foram pousando nos lugares para que estavam destinadas. E, pouco a pouco, as coisas começaram a respirar num uníssono desordenado, como se antes apenas existissem num sonho de um dia voltarem a ser. E, pouco a pouco, também o meu coração recomeçou a bater nesse íntimo e secreto ritmo da casa à beira do sol. E nos contrastes dos brancos e redondos, cinzentos e linhas rectas, negros e recantos me fui reencontrando com rostos de que o vazio se ausentou, até que o corpo viventemente cansado se encostou e, finalmente, adormeceu.

Terça-feira, 28 de Abril de 2009

Casa

Entrar na casa como num poema de Sophia: branco, quase transparente, corredor de luz.

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Amar, Ensinar, Criar

Não se lavra a terra que não quer ser semeada. Porque a terra pode querer ser apenas pedra e estar ali, estéril no granítico silêncio de cinzas. Porque a terra pode querer apenas pousio e descansar ali, exaurida no ronco de tréguas. Mas quando a terra grita e exibe o seu ventre de húmus e se entrega, então que venha o arado e depois a semente e depois a água e depois o estrume e que da festa fecunda nasça o que a terra nos der.

Segunda-feira, 20 de Abril de 2009

Leituras

Hold on tightly, let go lightly. Talvez a coisa tão mais difícil de fazer quanto mais amamos uma ideia, um projecto, uma pessoa, uma casa, uma paisagem... Hold on tightly, let go lightly.

Terça-feira, 14 de Abril de 2009

Será?

Artyom Sidorkin, de 28 anos, consultou o médico porque tinha constantes dores no peito e tosse persistente com sangue.
Os médicos suspeitavam que o paciente tinha cancro nos pulmões. Surpreendentemente, quando os médicos estavam a operar Artyom, para retirar o suposto tumor maligno, verificaram que não se tratava de cancro mas sim de uma pequena árvore a crescer dentro do pulmão, segundo informa o sítio online do jornal “ABC”.
De acordo com o diário "Komsomolskaya Pravda", após a cirurgia, nos Montes Urais na Rússia ocidental, os médicos acreditam que Sidorkin pode ter inalado uma semente de abeto e que começou a crescer dentro do seu corpo.
O russo, quando confrontado com o relatório dos especialistas, nem queria acreditar. Pensou que “estava a delirar”, noticia o “Globo.com”, quando lhe disseram que tinha sido encontrada uma árvore num dos pulmões.
JN, 14-04-2009

Domingo, 12 de Abril de 2009


Uma senhora encontrou um leão ainda bebé, na Colômbia, abandonado por um circo. Ela encontrou o felino mal alimentado, doente e quase morto. Levou o leãozinho para sua casa e cuidou dele ... Depois, quando o felino cresceu, foi obrigada a entregá-lo a um jardim zoológico. Agora vejam a reacção do leão quando ela o visita, todos os dias...

Segunda-feira, 6 de Abril de 2009

O Colo e o Gume

Porque eu sou a Morte quando dou colo à tua desistência. Porque eu sou a Vida quando te golpeio a carne entorpecida com o gume que não te deixa adormecer.

Quinta-feira, 2 de Abril de 2009

O Peixinho Sonhador

Para o Alexandre, o Simão, o Francisco e o Afonso


Era uma vez um homem chamado André que vivia numa cabana de vidro ao pé do lago. O André gostava muito de passear à beira do lago, ao fim da tarde mesmo antes do pôr-do-sol, porque todos os dias, àquela hora, cantava o Peixinho Sonhador que habitava as águas profundas – e nesse canto o André encontrava um sentido cheio e total para vida que levava, sozinho na cabana de vidro. Era um canto fresco e luminoso, acompanhado de palavras que todos os seres vivos entendiam (mas nenhum tentava traduzir), feitas de sílabas originais, dos tempos em que até os vulcões falavam. Só ouvia, enquanto caminhava, integralmente submerso no canto do Peixinho Sonhador. Não pensava nem imaginava, mas por vezes parava de andar e ficava muito atento às pequenas ondas que o canto do Peixinho Sonhador provocava na superfície branda do lago. No final daquela cerimónia celebrada pelo Peixinho Sonhador, todos os dias ao fim da tarde mesmo antes do pôr-do-sol, o André dizia para consigo: «Sei o que é a Felicidade, embora a palavra não seja bem essa.» E voltava para a cabana de vidro, onde à noite as próprias estrelas desciam um pouquinho da sua altura divina para lhe alumiarem a mesa, a cadeira e a cama, sabendo, dentro do coração, que cada segundo da sua vida era precioso e único, porque a vida dele era feita de muitos segundos que nunca mais se repetiam.
Uma tarde, mesmo antes do pôr-do-sol, o André dirigiu-se para a beira do lago, pronto para o concerto daquele dia, mas nada ouviu. Esperou, esperou, esperou... até lhe doerem as pernas e as costas e os olhos e a cabeça de tanto esperar de pé, mas o Peixinho Sonhador não cantou. E o André ficou tão triste, tão triste mesmo, que se sentou na terra e chorou. E, como acontece com todas as pessoas que choram sinceramente, naquelas alturas em que parece que têm dentro de si um lago que não descansa enquanto não transborda para fora das margens em que se sente preso, o André acabou por adormecer em cima da terra, à beira do lago, rodeado das flores e das ervas que livremente cresciam por ali, indiferentes à tristeza tão sentida daquele homem que vivia numa cabana de vidro. E, como acontece com muitas pessoas que adormecem obsessivamente concentradas num problema que têm, o André sonhou.
Todos desconhecem o que ele sonhou – mesmo as flores e as ervas que crescem livremente à beira do lago e que nunca estão tristes nem contentes (como sabem os poetas e os filósofos e os filósofos-poetas e os poetas-filósofos, que parecem ser a mesma coisa mas são coisas totalmente diferentes) –, mas, quando o André acordou, naquele momento em que a noite está moribunda e em que o dia ainda não ressuscitou completamente, a paisagem tinha mudado: no sítio do lago havia, agora, um vasto pomar de laranjeiras carregadinhas de grandes laranjas perfumadas e que pareciam muito sumarentas. O André levantou-se, sem sequer sacudir a terra que tinha ficado agarrada a si, e entrou pelo laranjal adentro, maravilhado com aquela dádiva de origem desconhecida. Reparando, então, que não comia há muitas horas, porque tinha adormecido à beira do lago a chorar, estendeu a mão e apanhou uma laranja, sem encontrar nenhuma resistência no ramo coberto de folhas verdinhas a que ela estava agarrada. Ocupou-se, então, a descascá-la muito respeitosamente e, assim que a despiu da casca e daqueles fiozinhos brancos que tornam a carne das laranjas tão enrugadinha, começou a meter os gomos um a um na boca e a mastigar lentamente, sentindo a polpa e o sumo a escorrerem-lhe pela garganta seca e a deixarem-lhe na boca um rasto de prazer. Depois da primeira, apanhou outra e repetiu minuciosamente o processo todo, até ficar saciado.
De repente, sem que percebesse donde nem como nem porquê, levantou-se da terra e das pedras e das ervas e das árvores e de tudo quanto existia um canto que ele reconheceu imediatamente, porque tinha a mesma melodia e as mesmas palavras antigas da ária que o Peixinho Sonhador costumava cantar. E o André dedicou-se a ouvir, sem pensar nem imaginar, mas muito atento às pequenas ondas que se formavam na superfície branda do ar – e a que muita gente ignorante chama brisa. Quando aquela extraordinária sinfonia acabou, o André disse para consigo: «Já sei outra vez o que é a Felicidade, embora a palavra não seja bem essa.»
E regressou à cabana de vidro, muito determinado a voltar à beira do pomar ou do lago ou do que viesse a encontrar naquele local, àquela hora do fim da tarde mesmo antes do pôr-do-sol.
Houve quem lhe visse um discreto sorriso nos lábios, enquanto caminhava. Nem todos sabem, contudo, que tal se devia ao facto de o André ter tido a revelação de que, afinal, sempre que quisesse, o Peixinho Sonhador cantaria dentro de si, submerso nas profundezas das águas que todos os seres humanos transportam consigo. E, como é muito difícil ouvir aquele canto, mesmo quando se descobre que ele habita dentro de tudo o que existe, temos de encontrar um sítio e uma hora especial para que o concerto do Peixinho Sonhador se ouça nitidamente e sem nenhum interferência. Para que todos possamos constatar, como o André: «Sei o que é a Felicidade, embora a palavra não seja bem essa.»

Segunda-feira, 23 de Março de 2009

Navegas o mar alto na doença do orgulho, entre ti e ti as sombras do medo e da vergonha.

Domingo, 22 de Março de 2009

Verão

Já me chega o teu cheiro, a densidade das tuas mãos, o hálito de forno da tua boca aberta sobre mim. Já me chega a alegria, o êxtase da vida cá dentro a germinar. Já me chega a erecção do corpo vitalmente brotante em pleno coito com o sol. Já me chega a brisa dos teus dedos, tocando quase sem tocar. Já me chegas, Verão, nos anúncios da Primavera que nem os ventos renitentes de mim afastarão.

Quinta-feira, 19 de Março de 2009

Luto duma Família de Actores

Natasha Richardson (11/5/1963-18/3/2009)
Avós: Michael Redgrave e Rachel Kempson
Mãe: Vanessa Redgrave
Marido: Liam Neeson
Tia: Lynn Redgrave
Irmãos: Joely Richardson e Carlo Gabriel Nero

Quinta-feira, 12 de Março de 2009

Hipótese

Programa Nós Por Cá, 11 de Março de 2009
No Hospital de Covões, em Coimbra, deram «alta por falecimento» à Sra. D. Deolinda Cristo. Depois de ter reclamado, lá corrigiram o erro. Mas fiquei a pensar... ninguém pôs a hipótese de a Sra. D. Deolinda Cristo ser descendente do outro? Nem ela própria? Parece-me haver matéria suficiente para investigar.

Domingo, 8 de Março de 2009

Dia Internacional das Mulheres (4): E Para Finalizar

Saldos na R. de Sto. António, em Faro («roubado» do Arrastão).

Dia Internacional das Mulheres (3): Thomas Beatie


Dia Internacional das Mulheres (2): Manuel Varela

Aos 28 anos, Manuel Varela, desafiado pela mulher, começou com sucesso a arranjar unhas. Apesar de, inicialmente, ter achado uma ideia "disparatada", por considerar que "não era um trabalho adequado para homens", agora defende-a com orgulho e diz que é a profissão da sua vida.
Quando iniciou o curso de Manicure, Manuel era o único aluno no meio de tantas mulheres. "No início do curso achavam estranho estar lá um homem, mas depois começaram a achar normal e, apesar de gozarem, ajudavam bastante", contou, admitindo também que nunca se sentiu incomodado.
Vindo de Cabo Verde para Portugal aos cinco anos, começou a trabalhar aos 18. Trabalhou nas obras, vendeu peixe, pintou barcos e foi motorista, mas confessa que, inconscientemente, sempre teve um cuidado especial com as mãos. "Sempre usei luvas para trabalhar, fosse nas obras, a vender peixe ou a pintar barcos. Era para as mãos não gretarem."
O manicure da Amadora confessa que nunca fala da sua nova profissão aos amigos e por vezes até os desafia a adivinharem o trabalho que faz, mas até agora nunca acertaram.
O jovem de 31 anos dá sempre conselhos às suas clientes e admite que a sua cor preferida é o vermelho, porque "fica muito bem nas unhas".
Diário de Notícias, 8/3/2009

Dia Internacional das Mulheres (1): Uma Lenda

Pierre Auguste Renoir
(Para as mulheres da minha vida)
Apesar de ser uma lenda, a história faz sentido: «No dia 8 de Março do ano de 1857, as operárias têxteis de uma fábrica de Nova Iorque entraram em greve, ocupando a fábrica, para reivindicarem a redução de um horário de mais de 16 horas por dia para 10 horas. Estas operárias que, nas suas 16 horas, recebiam menos de um terço do salário dos homens, foram fechadas na fábrica onde, entretanto, se declarara um incêndio, e cerca de 130 mulheres morreram queimadas. Em 1910, numa conferência internacional de mulheres realizada na Dinamarca, foi decidido, em homenagem àquelas mulheres, comemorar o 8 de Março como Dia Internacional da Mulher. (http://www.eselx.ipl.pt/ciencias-sociais/Temas/direitos_mulher/)